Civilização e outros Contos - Eça de Queirós

Eça de Queirós (1845 - 1900)



(Por Katielli Antunes)

José Maria Eça de Queiroz nasceu na Póvoa de Varzim, em 1845. Iniciou sua carreira literária com a publicação de folhetins, mais tarde reunidos sob o título de Prosas Bárbaras. Ligou-se ao grupo do Cenáculo, liderado por Antero de Quental, e participou ativamente das Conferências do Cassino Lisbonense. Encerrou sua carreira em Paris (França), onde faleceu em 16 de agosto de 1900. Eça escreveu um total de dezesseis contos, publicados em periódicos de 1874 à 1898. Reinterpretando a sociedade portuguesa do século XIX através de sua escrita, os contos do escritor foram reunidos e publicados em 1902, postumamente. Paixão e realismo se misturam e enriquecem os textos do autor. Esta aparente contradição se explica caso pensarmos que Eça era um admirador da poesia romântica de Victor Hugo e que, ao mesmo tempo, tinha como seus escritores favoritos Edgar Allan Poe, Baudelaire e Flaubert. O contista se preocupa não só com a sonoridade do texto mas também com um bom enredo,repleto de simbologias. Apesar da variedade temática, pode-se perceber em seus contos uma grande preocupação com as dores humanas. Seus personagens são em geral tristes, alguns céticos e outros ingênuos, mas sempre atormentados.

 

Civilização já antecipava uma postura de Eça de Queiroz, na qual se defendia que a felicidade estaria na Natureza(...)Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candeeiros - que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. tudo o isola e o separa da restante natureza (…). Nessa ideia de que o homem só é feliz longe da civilização, na vida simples do campo, distante do progresso, das máquinas, está a virada na carreira do escritor, dirigida, a partir daí, na superação da ironia e sátira dissolvente em prol de uma concepção de vida mais larga e humanitária, em que a crença substitui o ceticismo anterior.

 

O conto tem como principal objetivo criticar o tipo de progresso que torna o homem escravo de uma sociedade de consumo e pode ser dividido em duas partes: a primeira representa uma crítica à sociedade civilizada da época e a segunda, uma solução para essa crise.





No conto é narrada a vida de Jacinto, um homem novo e culto que vivia luxuosamente, rodeado dos mais sofisticados e recentes inventos e das mais belas obras-primas da literatura(...) Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto), que nasceu num palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado(...), através de um narrador-personagem que mais tarde se descobre chamar-se José (…) Que lhes importava a eles que um de nós fosse José e o outro Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno(...).







Sempre aborrecido, desanimado e entediado, apesar do luxo em que vivia, é o protótipo do homem civilizado mas também da infelicidade. Tudo muda quando o protagonista decide ir passar uma temporada bem longe da civilização. Jacinto tentou superar o isolamento enviando para aí todos os equipamentos técnicos e demais apetrechos que julgava indispensáveis a uma vida civilizada e luxuosa. Contudo, ao chegar, percebe-se que os caixotes enviados não tinham chegado e que a nenhuma da suas ordens, relativas à realização de obras na casa, haviam sido cumpridas(...)O caseiro, vago, sem compreender, arregalava os olhos miúdos onde já bailavam lágrimas. Os caixotes? Nada chegara, nada aparecera. E na sua perturbação o Zé Brás procurava entre as arcadas do pátio, nas algibeiras das pantalonas... Os caixotes? Não, não tinha os caixotes(...).




 

Inicialmente desmoralizado e ainda mais pessimista com tamanha "tragédia", Jacinto é, subitamente, invadido e transformado pela beleza e simplicidade da vida campestre. E vai ser assim, longe da civilização, dispensando os exageros do luxo, que Jacinto redescobre o prazer e a alegria de viver. No conto, temos um confronto entre duas concepções de vida, experienciadas por um mesmo personagem, o milionário Jacinto.

 

O conto decorre entre o inverno e a primavera. Sendo que a ação inicial se dá em março, quando Jacinto decide passar alguns dias no solar de Torges, dando sequência à ação principal em junho, num domingo de verão, estendendo-se até agosto, quando José decide visitar o exilado Jacinto (...) Depois, por uma abrasada manhã de Agosto, descendo de Goães, de novo trilhei a avenida das faias, e entrei o portão solarengo de Torges, (...), que permaneceu no solar.




 

A parte inicial ocorre no Palácio (...) Nesse palácio (floridamente chamado o Jasmineiro) que seu pai, também Jacinto, construíra sobre uma honesta casa do século XVII, assoalhada a pinho e branqueada a cal - existia, creio eu, tudo quanto para bem o espírito ou da matéria os homens têm criado(...), e a parte central no solar de Torges, mostrando, de forma explícita, a crítica ao consumismo exagerado, seguido da solução para a crise vivenciada pelo personagem Jacinto (...)E tudo o que me contou, pisando alegremente com os sapatos brancos no soalho, foi que se sentira, ao fim de três dias em Torges, como desanuviado, mandara comprar um colchão macio, reunira cinco livros nunca lidos, e ali estava...(...).



O TESOURO

O tesouro é uma história de astúcia e crimes. O conto acontece em torno de uma "viagem" de três irmãos pela floresta em busca de um tesouro perdido, tendo como tema principal a ambição desmedida e resumindo a moral da história ao sábio ditado popular "quem tudo quer tudo perde". Eça escreve uma história com humor, imaginação e alguma poesia, e também algo de trágico e amargo. No entanto, por detrás do trágico, há um prazer do lúdico, da dimensão onde se pode desvendar, através das personagens, uma visão negra da humanidade e das relações entre os indivíduos.



Se considerarmos a história dos "três irmãos de Medranhos", estamos perante uma narrativa fechada, caso nos centrarmos sobre o "tesouro", teremos de considerar a narrativa aberta , dado que ele continua por descobrir (...)ainda lá está, na mata de Roquelanes.




CARACTERÍSTICAS PERSONAGENS



Predomina a caracterização direta, visto que a maior parte das informações nos são dadas pelo narrador. No entanto, os traços de traição e premeditação de Rui e Guanes são deduzidos a partir do seu comportamento, através de uma caracterização indireta. As personagens começam por ser apresentadas coletivamente (...)Os três irmãos de Medranhos(...), mas à medida que a ação progride, a sua caracterização vai se individualizando, como que desenhando o predomínio do egoísmo individual sobre a aparente fraternidade.




TEMPO



A ação decorre entre o inverno e a primavera, mas concentra-se num domingo de primavera, estendendo-se de manhã até à noite. O inverno está conotado com a escuridão, a noite, o sono, a morte. E é no inverno que nos são apresentadas as personagens, envoltas na decadência econômica, no isolamento social e na degradação moral (...)E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.(...). Por sua vez, a primavera tem uma conotação positiva, associa-se à luz, à cor, ao renascimento da natureza, sugere uma vida nova, enquanto o domingo é um dia santo, próprio ao renascimento espiritual.



Quanto à ordenação dos acontecimentos, predomina pela sequência cronológica. Só na parte final nos surge um recuo no tempo, quando o narrador abandona a postura de observador passando à onisciente, para revelar o modo como Guanes tinha planejado o envenenamento dos irmãos, manifestando dessa forma a natureza traiçoeira do seu caráter.



ESPAÇO

 

A parte inicial, ocorre nos "Paços de Medranhos" e, a parte central, na mata de Roquelanes. Somente o episódio do envenenamento do vinho é situado num local um pouco mais distante, na vila de Retorquilho. O paço dos Medranhos é descrito negativamente, por exclusão (...)a que o vento da serra levara vidraça e telha(...), e os três irmãos circulam entre a cozinha (sem luz, nem comida) e a estrebaria, onde dormem. O fato de três fidalgos passarem os seus dias entre a



cozinha e a estrebaria, os lugares menos nobres de um palácio, é significativo: caracterizando o grau de decadência econômica em que vivem. A miséria é acompanhada por uma degradação moral que o narrador não esconde.



O espaço exterior, a mata de Roquelanes, não é um simples cenário. A "relva nova de Abril",é uma manifestação visível do renascimento da natureza, sugerindo o renascimento espiritual que as personagens, não são capazes de concretizar. Assim como, a "moita de espinheiros" e a "cova de rocha" simbolizam as dificuldades, os sacrifícios, que é necessário enfrentar para alcançar o objeto pretendido.



A natureza, calma, pacífica, renascente (...)um fio de água, brotando entre rochas, caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas.(...), contrasta com o espaço interior das personagens, que facilmente imaginamos inquietas, agitadas, perturbadas pela visão do ouro e ansiosas por dele se apoderarem, com exclusão dos demais.



JOSÉ MATIAS

O conto tem como principal objetivo criticar o ultra-romantismo exacerbado, enaltecendo a estética realista, para isso Eça apresenta-nos uma intriga amorosa. A história é contada por um narrador onisciente, utilizando-se de um diálogo com um amigo seu acerca do funeral de José Matias e aproveita para relatar a história amorosa do falecido (...)Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o enterro do José Matias - do José Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu amigo certamente o conheceu - um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode crespo de paladino sobre uma boca indecisa de contemplativo, destro cavaleiro, duma elegância sóbria e fina(...). Todo o relato acontece essencialmente por meio da cena dialogada. O conto é uma espécie de ''falso diálogo'', já que apenas o narrador mantém a palavra (...)Vem o caixão saindo da igreja...



Apenas três carruagens para o acompanhar. Mas realmente, meu caro amigo, o José Matias morreu há seis anos, no seu puro brilho. Esse, que aí levamos, meio decomposto, dentro de tábuas agaloadas de amarelo, é um resto de bêbedo, sem historia e sem nome, que o frio de Fevereiro matou no vão dum portal(...). O enterro de José Matias simboliza o declínio de uma estética desajustada e ridícula, relativamente aos valores da nova sociedade, pondo em evidência o distanciamento entre o que a sociedade oferece e o que a literatura pratica.

CARACTERÍSTICAS DAS PERSONAGENS



A história amorosa fala-nos de um amor contemplativo, espiritual, platônico, idealizado e côrtes que José Matias cultiva por Elisa (...)O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo de encanto Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líquidos, quebrados, tristes, de longas pestanas(...).



Elisa é caracterizada como uma mulher sensual e carnal. José Matias é representado como um homem invulgar, um ultrarromântico repleto de um espiritualismo doentio. Ao contar a história o narrador critica esse amor totalmente platônico que seu amigo defendia, onde aparece claramente o objetivo de Eça de Queiroz, opondo o Realismo ao Romantismo (...)E este enlevo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, distante e imaterial! Não ria... Decerto se encontravam na quinta de D. Mafalda: decerto se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca, por cima das heras desse muro, procuraram a rara delícia duma conversa roubada ou a delícia ainda mais perfeita dum silêncio escondido na sombra. E nunca trocaram um beijo... Não duvide!(...).



TEMPO



Todo o conto decorre numa tarde de sol, desde o velório até o enterro de José Matias (...)Linda tarde, meu amigo!(...). Quanto a ordem dos acontecimentos, a biografia de José Matias é contada a partir do final, no seu enterro, pelo amigo-narrador. O início do relato se passa a partir de Coimbra,



no ano de 1865, havendo portanto uma clara intenção de crítica aos eventos sócio-literários da época (...) E espírito curioso, muito afeiçoado às idéias gerais, tão penetrante que compreendeu a minha Defesa da Filosofia Hegeliana! Esta imagem do José Matias data de 1865(...).

 

ESPAÇO

A ação inicial, do amigo-narrador estar esperando o enterro de José Matias se passa no Cemitério (...) Encontrei porém com ele um amigo mais antigo e confidencial, aquele brilhante Nicolau da Barca, que já conduzi também a este cemitério, onde agora jazem, debaixo de lápides, todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens(...). Já toda a narrativa da vida de José Matias, decorre em Lisboa (...)partiu para Lisboa, alegrar a solidão dum tio que o adorava, o general Visconde de Garmilde(...).

5 Response to "Civilização e outros Contos - Eça de Queirós"

  1. Anônimo Says:
    22 de março de 2011 12:33

    oque voce acho em comum do titulo civilização com o conto ?

  2. lari182010 says:
    3 de maio de 2011 06:09

    eu preciso de obras/contos grandes voce nao me ajudou em nada

  3. Anônimo Says:
    22 de novembro de 2012 11:59

    espetacular, ótimo trabalho

  4. Diogo Silva says:
    6 de dezembro de 2012 01:41

    eu venho a procura do conto a civilizaçao e n encontro um cu

  5. José Alves says:
    1 de julho de 2014 13:16

    Muito bom Obrigado

Postar um comentário